Todo mundo usa todo mundo o tempo todo

Quando uma pessoa se sente vítima, se vê vítima, se acredita vítima, todo o seu poder de transformação é retirado.

vitima
Photo by Anthony Tran on Unsplash

O cantor Sting, no final da década de 80, circulou pelo mundo com o cacique Raoni, chamando atenção para a causa indígena. Ao ser acusado de usar o líder Txukahamãe para se promover, Sting deu uma resposta brilhante: “Se eu me envolvi nessa questão para me promover, não deixo de, em alguma medida, acreditar no que divulgo; já se eu me envolvi por idealismo, não deixo de, em alguma medida, me autopromover.” Falou e disse.

É possível – e nada maniqueísta – compreender que todas as relações, mesmo as mais profundas e sinceras, possuem, em sua constituição, um tanto de interesse. Sintetizando numa frase: todo mundo usa todo mundo o tempo todo.

O termo “usar” possui um contorno nem sempre justo: ele pode ser visto de forma neutra, independente dos sentimentos que o acompanhem. Quando você está com seus amigos numa festa, você está usufruindo (e usando) da companhia deles e eles, da sua. Apesar da conotação negativa que o verbo passou a ter, usar não é obrigatoriamente algo ruim – e é um fato.

Mas por que eu estou perdendo o meu tempo – e gastando o seu – com essa teoria de botequim? Uma teoria altamente questionável – tanto quanto qualquer outra, aliás?

Bem, primeiro porque escritores são o último refúgio do politicamente incorreto: por lidarmos com ficção (aliás, crônica é um gênero literário)  temos a prerrogativa de enfiar o pé na jaca até o talo. Segundo porque eu gosto de evocar essa teoria como um antídoto para quando começo a me sentir uma coitadinha – e, se ela é útil para mim, talvez seja para mais alguém, vai saber.

Quando uma pessoa se sente vítima, se vê vítima, se acredita vítima, todo o seu poder de transformação é retirado. Vítimas – no momento em que sofrem – são impotentes. E impotência é algo morto, sem cura, sem movimento. Vítima de fato é aquela pessoa que não teve poder de escolha. Uma mulher estuprada, por exemplo, quando se levanta em busca de justiça, deixa, estanque no passado, o momento em que esteve submetida: naquele instante ela não teve escolha, mas, agora, tem.

Vamos a um exemplo menos punk. Suponhamos que uma moça tenha saído com um cara, se apaixonado, e que, depois de uma ou várias noites, ele tenha usado a máxima do Leão da Montanha: saída estratégica pela esquerda. Então, a pobre se tranca em casa com três barras gigantes de chocolate, afinal foi uma vítima! Ora, mas ela também não o usou? Primeiro como um corpo viril, como uma confirmação do quanto ela é sexualmente apetitosa, e depois como um receptáculo dos seus anseios românticos? Eu sei: parece mais fácil jogar a culpa no outro – mesmo porque cafajestes, insensíveis ou simplesmente homens que não nos querem mais não faltam por aí –, mas essa atitude só prolonga o sofrimento. Se ela teve escolha, está agora apenas lidando com as consequências de um risco que topou correr – e se ela teve o poder de se colocar nessa situação, não terá também a capacidade de sair dela?

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net