Tornar-se mãe...

Sim, “tornar-se”, mas poderia ser inventar-se mãe, por que não?

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Sim, “tornar-se”, mas poderia ser inventar-se mãe, por que não?
Não é difícil escutarmos por aí sobre o “instinto materno”, algo inerente à espécie humana, algo natural, que já nos é dado, sem nenhum trabalho da nossa parte. Porém, cada vez mais mulheres angustiadas procuram a nós, psicólogos, com perguntas do tipo “eu não sei o que fazer com meu bebê , “às vezes tenho vontade de ir para um lugar distante e esquecer que tive um filho”. Essas falas não são verbalizadas tranquilamente, elas vêm, muitas vezes, envolvidas em angústia e muita culpa.
“Como posso desejar ficar longe do meu bebê? A maternidade não é a plenitude, o amor incondicional?”. Fica claro o desencontro: imaginava-se uma situação e a realidade muitas vezes é diferente.
A ambivalência faz parte das relações humanas e por isso, também faz parte da relação mãe-filho. Certamente as mães experimentam um tipo de afeto único, que apazigua um desejo legítimo por aquele bebê que tanto precisa dela. Porém, o outro pedaço nem sempre pode aparecer, afinal, o que pensariam de uma mãe que se cansa de seu filho? Que ela é humana, diria eu!
Ter um filho é encontrar-se com o novo, com o desconhecido, com aquele pequeno estrangeiro que agora habita sua casa e é talvez o ser mais íntimo que uma mãe tem, esse estrangeiro familiar. Há que conhecê-lo, decifrar suas necessidades, desejos e isto não é tarefa fácil, muito menos plena de felicidade.
Nós bem sabemos o quanto muitas vezes nos angustiamos frente a situações novas, em que somos convocados em nosso total “não-saber”. Não se sabe antes sobre aquele bebê, não se sabe antes sobre aquele encontro. A relação mãe-filho é construída, encontro após encontro, choro após choro, mamada após mamada. É um trabalho artesanal, em que a mãe oferece, o bebê recebe, e vice e versa. Assim, essa trama se consolida a ponto que já não se sabe o quê veio de quem, mas aos poucos o bebê estrangeiro se torna o filho conhecido.
Além da experiência de encontrar-se com esse estranho familiar, a nova mãe se vê esmagada por todo imaginário social sobre “como ela deveria se comportar agora que é mãe”. As livrarias estão cheia de manuais querendo mostrar que só há UM jeito de fazer. Grande engano! Há todas as maneiras quantas a humanidade seja capaz de criar para tornar-se mãe. Trata-se de uma invenção singular, que cada mulher fará baseada em sua história pessoal, experiências passadas e também no que aquele bebê específico pode oferecer.
É importante ter em conta que a maternidade traz angústias sim e o primeiro passo para aliviar a culpa é aceitar que não há uma satisfação total, plena. Claro que a maternidade produz satisfação, mas ela é parcial. Ora a mulher verá seu desejo cem por cento naquele bebê, ora em ir trabalhar, ora no companheiro, ora na novela, no cabeleireiro, etc. E isto não é pecado, é humano e muita saudável!

Leticia é psicóloga, psicanalista, mestre pela Universidade Complutense de Madrid. Atualmente é psicóloga do Instituto da Criança do Hospital das Clinicas de São Paulo e atende em seu consultório particular. Atende tanto crianças quanto adultos. Contato: leticia.lopez@hc.fm.usp.br