Traí, sim

Capítulo 33 - O Diabo que te Carregue

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Seu ex está namorando. Ele diz que não é sério, mas isso não importa: o fato é que ele está namorando. E essa notícia te causou, além de um certo ciúme… alívio. É, alívio. Um estranho alívio. Como assim? Enquanto você sofria largada numa cama, deprimida até o último pelo encravado, ele iniciava um novo romance e isso fez você se sentir aliviada? Sim, fez.

A razão é simples. Sem eufemismos, o.k.? Você o traiu numa ocasião. E isso não é um mea culpa. Você não se arrepende. A verdade é que você seria capaz de repetir aquela noite uma centena de vezes.

Foi no ano passado, numa das vezes em que você foi a trabalho para o Rio de Janeiro. Durante o café da manhã no hotel, você, que detesta acordar cedo, mascava um pão de queijo sem muito ânimo, quando ouviu uma voz grave chamar seu nome. Virou-se e deu de cara com ele. Ele, um ex-namorado da época do cursinho. “Olá”, “como vai”, “quanto tempo”, “você por aqui”, “trabalhando”, “que coincidência agradável”. Ele estava morando em Brasília com a mulher e os filhos e iria embora na manhã seguinte. Vocês marcaram de jantar, para relembrar os bons tempos em que ambos eram solteiros. Foi ele quem disse isso:

– Vamos jantar e lembrar o tempo em que a gente era solteiro?

– Sim – você respondeu.

Como as crianças dentro do foguete no programa do Sílvio Santos, sua alma sequiosa de aventura repetiu:“Siiiiiiiiiiim!”

À noite, vocês foram a um lindo bistrô na Praia Vermelha. Depois de muito vinho, ele te beijou. E você sentiu todos os fogos de artifício espocando em você. Borboletas no estômago. Pirilampos nos rins. Vaga-lumes mais embaixo. O primeiro pensamento foi: “Meu Deus, eu estou beijando outro homem”. O segundo foi: “Dane-se!”

Vocês voltaram ao hotel sem nenhuma dúvida do que viria a seguir. E veio. E como veio. Veio à noite toda, de todos os jeitos, entremeado por muito olho no olho e conversas carinhosas sem sair da cama. Enfim, aquela coisa toda que a gente costuma fazer no início do namoro (que pena ser só no início).
Quando ele saiu do seu quarto, às seis da manhã, você não se sentiu rejeitada. Ele tinha um avião a pegar, um horário a cumprir. A vontade dele certamente era ficar o resto da manhã e da tarde naquela cama junto a você. Ele mesmo disse isso. Se foi por gentileza ou sinceridade, não importa: ele disse.

Você ainda ficou mais dois dias no Rio, o que foi bom, pois pôde deixar suas pestanas piscarem languidamente ao sabor das lembranças frescas sem que ninguém lhe perturbasse com desconfianças.

Ao chegar ao aeroporto da sua cidade, você pensou que talvez pudesse sentir algum remorso ou desconforto diante do seu marido. No entanto, ao entrar em casa e lhe dar um beijo, você não sentiu absolutamente nada. Nem culpa, nem vitória. Nada. Eram dois compartimentos independentes: ele e o outro. Foi então que você teve certeza de que seria capaz não só de ter um caso extraconjugal, como também de mantê-lo por tempo indeterminado.

Mas se você seria capaz de manter um caso e até desejava isso – se aquele homem não morasse em Brasília, você certamente o teria procurado para um segundo encontro –, o que exatamente você sentia pelo seu marido? Carinho? Amizade? Sensação de comprometimento e dever? Mas isso é o bastante para um casamento existir? Ou esses sentimentos múltiplos são normais e você, como todo o resto do planeta, precisava fazer uma escolha? Sim – e você fez.

Você decretou que o tédio no seu casamento era irremediável e deveria ser suportado. Dessa forma, você resolveu esquecer que aquela foi uma noite ótima. Você tentou abafar a sede que sentia de uma vida descompromissada – descompromissada do seu marido e comprometida com outro, isso, sim.

Você varreu isso para debaixo do tapete e continuou sua vida morna e sem graça. Até que, do marasmo vocês caíram na crise e, da crise, na inevitabilidade da separação. O resto é história. Agora, ao ficar sabendo que eu ex já saçaricava por aí enquanto você tomava antidepressivos, mesmo que tecnicamente separados, algum resquício de culpa que não chegou a vir à tona foi aplacado. Foi como se você recebesse o troco e, agora, sim, só agora, estivesse amplamente livre. A cabeça da gente é mesmo um amontoado de entulhos. Estranhos entulhos.

 

 

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net