Traição

Numa fase em que estava em meio à bagunça turbulenta da separação, sem saber se ficava ou se partia, se chorava ou se sorria, acabei reencontrando um amigo da adolescência. Eu, confusa, machucada e perdida. Ele, com um ânimo extraordinário de me alegrar os dias.

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A imagem que me remetia às traições era a de seres maus destruindo a vida alheia, bebendo de seu sangue e rindo da tristeza de seus companheiros.

Numa fase em que estava em meio à bagunça turbulenta da separação, sem saber se ficava ou se partia, se chorava ou se sorria, acabei reencontrando um amigo da adolescência. Eu, confusa, machucada e perdida. Ele, com um ânimo extraordinário de me alegrar os dias.

Estava tentando sair de um relacionamento falido, regado a grandes proporções de abusos psicológicos. Vinha lutando e juntando forças para me reerguer mas num estalo de dedos do ex eu corria de volta para, mais uma vez, me estrepar. A verdade é que quando ele me percebia forte e reluzente, rumo em direção contrária à sua, lançava seu laço e eu me rendia. Este ciclo perdurou por anos. Até que entra na história este cara, como uma faísca que faltava para acender a luz no fim do túnel: o meu querido amigo.

Passei uma noite toda com ele. Fomos jantar, dançar, beber, dar risada, passeamos, e vi que até a minha sensibilidade da pele ao ser acariciada soava com um tom de estranheza. Eu não sabia mais o que era carinho. De gargalhar até doer a barriga. De fazer parte da agenda da outra pessoa. De viajar acompanhada. Poxa, quem eu era? O que eu era?  Abandonei a mim mesma e agora, uau!, essa coisa de ser desejada é muito boa.

Sim, eu traí. E não foi por pouco tempo. Foi por mais de um ano. Me orgulho disso? Não é questão de orgulho, de culpa ou do significado das razões. O lance é que às vezes o bicho pega de um jeito, nos mastiga pouco a pouco pelas beiradas, e só nos damos conta quando já fomos engolidas, digeridas e estamos no meio de seu bolo fecal. Daí, é um salve-se quem puder. Esta foi a maneira que encontrei de me retirar daquela situação. Poderia ser outra? Não sei. Julgue-me quem quiser. Mas foi lindo, continuamos amigos (eu e ex-amante), queremos o bem um do outro e isso é o que importa.

Tínhamos a melhor das intenções.

Conheça mais do trabalho da artista plástica Camila Morita

Link do trabalho www.flickr.com/camilamorita

Instagram: @moritacamila

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.