TUDO O QUE ELES QUEREM - O Diário de Verônica Volúpia

Mesmo que não sejam culpados, nosso silêncio aumenta o remorso que eles sempre sentem. Na cabeça de um homem, a mulher é o sexo frágil. E nossa fragilidade merece proteção.

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Esqueci o celular no carro da seguradora. Coloquei num lugar ao qual não estou habituada. Enquanto esperava o elevador para ir até a garagem, foi inevitável ouvir a discussão em volume máximo que emanava do apê do vizinho da frente. Acusações, hipérboles, pontos de exclamação, fagulhas. As ofensas e a histeria da mulher que estava com ele eram quase tangíveis. Mais uma que se achava titular e descobriu-se no banco da reserva.

Pobre Patrick, como todo solteiro convicto, é um eterno incompreendido: se ele trata bem, elas querem vínculos, se ele trata mal, querem enquadrá-lo. Senti ímpetos de escutar um pouquinho mais, há sempre tanto a aprender com as desavenças. Mas os berros estridentes eram de jogadora de várzea. Não tive paciência. Ninguém merece aturar uma descontrolada. Perdeu o rebolado, perdeu a razão.

Em primeiro lugar, uma mulher que se sente ou que realmente foi traída não deve gritar, não para um homem. Pode se esgoelar em casa, sozinha, no travesseiro. Pode chutar as paredes, xingar a mãe dele, o que der na telha, em privacidade. Na hora “H”, na frente do oponente, fale baixinho. Quase tão baixo que ele tenha que chegar mais perto. Um homem suporta tudo, tapas, xingamentos, quebra-quebra, mas não suporta silêncio e lágrimas. É da natureza dele o combate físico. Tem até canal a cabo exclusivo pra isso. Eles assinam e pagam pra ver. Poupe seus uivos sopranos para motivos mais prazerosos. Uma mulher calada diz muito mais do que esbravejando. Ela diz o que um homem só compreende se não ouvir.

Silêncio é sinônimo de mistério. E mistério é abstrato. Homens não sabem lidar com o implícito. Não é algo em que eles possam dar uma gravata, uma chave de braço e derrubar no chão. Desconhecer nossos próximos passos os desestabiliza. Mesmo que não sejam culpados, nosso silêncio aumenta o remorso que eles sempre sentem. Na cabeça de um homem, a mulher é o sexo frágil. E nossa fragilidade merece proteção. É instintivo, ele vai começar a sentir ímpetos de confortar você, de pedir desculpas. Arranjará motivos para encontrá-la ‘sem querer’ na rua. Mantenha-se gostosa e com tudo em cima neste período. As chances de reencontro são altíssimas. Quem gosta de definições e pontos finais são as mulheres. Os homens gostam de reticências que levam a uma próxima vez.

Engolir uma resposta nos dá a vantagem da réplica. No auge da discussão, olhe bem nos olhos dele, dê as costas e vá embora. E parabéns se você conseguir sumir de vista por uns tempos, o efeito bumerangue será total: ele vai longe e volta certo. Desconhecer o seu paradeiro e o que você está sentindo vai levá-lo a alimentar o pior pesadelo de um macho: você vai dar pra outro. Quando um homem está em crise, some ou pede um tempo, significa que ele quer dar um tempo de você. Leia-se: ele tem outra. Não existe homem confuso, existe homem comprometido. É claro que eles replicam essa lógica para cima de nós. Pois alimente a neurose dele. Depois sente e espere. É no seu divã que ele vai deitar.

Homens detestam lágrimas. Eles não podem ver uma mulher chorando por não saberem lidar com as próprias lágrimas. Para um homem chorar, a angústia tem que ser imensa. A tristeza, abissal. A dor, insuportável. E qual o comparativo que usam? De novo: o deles mesmos. Ao ver uma mulher em prantos, pensam: “Ela deve estar sofrendo muitíssimo”. O que pode até ser verdade, mas, em geral, não é. Mulher chora por qualquer coisa. A gente tem cólica e chora, ouve uma música romântica e chora, quebra a unha a caminho da festa e, se estiver na TPM, chora. Isso não nos torna mais fracas. É uma simples reação física. Toma-se água, pronto, repõe-se o líquido perdido. Chorar pra nós não é o fim do mundo, é uma ducha de dentro pra fora.

Com o celular devidamente resgatado, voltei pra casa. Ao sair do elevador, quase nos trombamos, eu e a histérica. Ela ainda bufava e passou por mim feito um tufão. Foi embora. Patrick estava parado em pé, na soleira da porta. Soltou um suspiro, mas não correu atrás. Encolheu os ombros, abriu os braços e me olhou como quem diz: “O que é que eu posso fazer?”. Ele estava um gato, assim, com a camisa desabotoada. Devolvi a expressão de pesar e certo sorrisinho solidário. Fazer o quê se as pessoas confundem amor com posse? Entrei e já fui botando um vinho no gelo. O Patrick adora vinho. Homens adoram vizinhas gostosas. Homens detestam discutir a relação. O Patrick detesta passar a noite sozinho. A campainha soou. Ah, o ser humano é tão previsível.

“Você acha que eu sou um cafajeste?”, perguntou, assim que abri a porta. “Acho que você é ótimo”, fui sincera. Tudo o que eles querem é elogios. “Acha mesmo?”, quis saber. “Quais das suas mil qualidades você quer que eu destaque?”, sorri. Inseguros, eles precisam de incentivo constante. “O problema é que você é gostosíssimo, as mulheres ficam loucas”, eles amam superlativos. Patrick riu. “Quer entrar?”, convidei. É claro que ele queria. O charme faz parte: “Não vou atrapalhar?”. Homens necessitam ouvir que você também os deseja: “Claro que não, será um prazer”. Tudo o que eles querem é ser amados. Por todas. Sim, você faz parte do ‘todas’. “Aceita um vinhozinho?”. Eu também.

 

 

*Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

O Diário de Verônica Volúpia
As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus.
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Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.