Um dia de piscina

Capítulo 35 – O Diabo que te Carregue

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Um dia de piscina. Você quer ter um dia de piscina. Você merece um dia de piscina. Mas o que é isso afinal?

Quando criança, os melhores dias das férias eram os dias em que a piscina da escola ficava aberta e você passava tardes inteiras sob o sol morno, mergulhada na água igualmente morna, leve, sem peso. Às vezes chovia e pingos frios salpicavam no seu rosto, como alfinetes de gelo que contrastavam com a temperatura da piscina.

Sozinha, classificando as nuvens pelo seu formato, ou em grupo, jogando bola, sob o sol ou sob a chuva (ou os dois), boiando ou fazendo campeonatos de fôlego debaixo d’água, aqueles foram dias de um prazer sensorial irretocável. Sua sexualidade infantil encontrou a exata expressão no tempo daquela piscina: a água era sua cálida amante. Ao anoitecer, você tomava um longo banho no vestiário, tirava o cloro dos cabelos e voltava para casa ainda flutuando. Agora, adulta, você rotula um dia perfeito, dia de irretocável prazer sensorial, como sendo “um dia de piscina”.

São duas da manhã de uma sexta-feira abafada. Você está sozinha, em frente ao computador. Sozinha e ansiosa. Juntando o tempo em que você já está separada, mais o tempo em que seu casamento desmoronava, mais o tempo em que sua relação andava morna, mais o tempo que você estava envolvida com gravidezes, bebês e seus respectivos cuidados (mais envolvida do que o normal, justamente para fugir da constatação de que seu relacionamento não ia nada bem das pernas), juntando tudo isso, faz mais de seis anos que você não tem um dia de piscina.

O prazer sensorial infantil de outrora adquiriu um caráter explicitamente sexual e afetivo. Os líquidos nos quais você quer mergulhar hoje são outros. Em bom português: você precisa de um homem. Um vigoroso, bonito, inteligente e doce macho humanóide com tanto desejo por você que até se sinta febril ao te beijar. Um homem cuja conversa não a entedie. Uma criatura sexual que a desconcerte. Um ser afetivo pleno que, entre uma encoxada e outra, te diga que seu sorriso é lindo.

Mas os homens da Internet, os homens do site de relacionamentos no qual você entrou, parecem todos umas virgens pudicas. Você achou que seria fácil tomar um café com alguns desses caras – ora, um café é só um café –, mas não. Eles marcam e desmarcam, dizem que sim, depois que não, conversam e desconversam, são piores que donzelas encasteladas – e isso está te deixando realmente aborrecida.

Você tentou até mesmo abaixar seu padrão, escrevendo para homens que antigamente não conseguiriam de você sequer um aperto de mão, mas foi inútil. Eles também estão encastelados na idéia de que, se você conversa com seis mulheres pela Internet, você tem essas seis mulheres nas mãos.

Mentira. Você não tem ninguém, não beijou ninguém, não se relacionou com ninguém, não se mostrou de fato a ninguém e ninguém sentiu o seu cheiro – se houver ainda alguma dúvida, isso é o que faz uma mulher transar com um cara. Eles, encastelados. Você, de saco cheio.

Nessa madrugada quente de sexta-feira, especialmente nessa madrugada quente de sexta, seu dia de piscina, seu desejado, necessário e vital dia de piscina, parece estar cada vez mais distante. É, os tempos continuam bicudos.

 

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net