Um fora por WhatsApp

32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens - Capítulo 5

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Onze horas da manhã de um domingo, sol de rachar pedra e eu chumbada na cama. Como eu tiro esse cão do meu quarto? De cima do meu corpo? De dentro do meu peito? Acabei de mandar mais uma mensagem para Marcelo perguntando o que aconteceu: é a terceira – e última, claro. Será que ele sofreu algum acidente e morreu? Ou está em coma? Eu preferiria que ele tivesse sofrido um acidente. Ou dois.

Por que, mais uma vez, eu tenho de arrancar a fórceps o ponto final da boca de um homem que não me quer? Pra que isso se um áudio de 20 segundos bastaria? Os tempos são chegados e nesses tempos um áudio é satisfação suficiente, sim. Não digo isso porque gostaria que Marcelo, ao menos, tivesse se dignado a me enviar algumas palavras esclarecedoras. O fato é que eu acredito que relacionamentos – desde que não muito longos – devem ser terminados com a maior brevidade e o menor contato possíveis. Pessoalmente a dor é lancinante. Por telefone, é terrível. Por WhatsApp, é desagradável. Por torpedo é risível, quase uma piada que você pode contar aos amigos. Mas nenhum sinal, não dizer nada, zero, é a agonia eterna. Homens, compreendam de uma vez por todas: é humano cravar o punhal!

Dar um fora é desagradável. Receber um fora é desagradabilíssimo. Até aí estamos de acordo. Falta de consideração. É isso o que dizem a respeito de quem dá um fora por telefone ou WhatsApp: que falta de consideração! Ok. Mas por que tantos homens não tiveram, não têm e continuam não tendo essa falta de consideração para comigo? Seria o suficiente!

Olha só: se um rapaz chegou à conclusão de que não quer mais permanecer numa relação amorosa com, digamos, aquela moça ali, o que pode fazer com que ele mude de ideia? Nada. Ameaças podem amedrontá-lo, lágrimas podem até comovê-lo, pedidos desesperados podem constrangê-lo, mas nada disso terá a capacidade de mudar seus sentimentos. Se ele se sentir intimidado, pode, a contragosto, ceder ao seu desejo de separação e esticar um pouco mais um relacionamento que já está agonizante – atitude perversa para ambos. Então, se basta que um dos dois não queira continuar para que o romance, em sua essência, esteja acabado, se o fim, portanto, se tornou inevitável, qual a utilidade, a verdadeira utilidade, de exigir que o fora seja dado olho no olho?

Constrangimento e vingança. Nesse momento, a tal moça quer forçar o rapaz a permanecer na relação, mesmo que essa não seja sua vontade; nessa hora, ela quer afastar a dor a qualquer preço. Caso o homem finque o pé e insista em acabar, aí entra a vingança. Cara a cara, ela tentará fazer com que ele se sinta mal o suficiente, culpado o suficiente, calhorda o suficiente para não dormir bem, pelo menos, aquela noite. Ela precisa impor a ele nem que seja um naco do sofrimento que a atinge. A tal consideração, o tal face a face, que se evoca ao terminar um namoro esconde os desejos reais de quem está prestes a ser abandonado: em primeiro lugar, retardar o abandono com qualquer arma que esteja ao alcance e, se isso falhar, expor seu sofrimento como forma de vingança. Ah, fala a verdade: o amor não é mesmo lindo?

Por saber disso tudo, por compreender o pavor que os homens têm de escândalos, lágrimas e términos cara a cara é que eu escrevi ao Marcelo: me mande um e-mail, me mande uma frase no WhatsApp que seja, mas mande alguma coisa! Adiantou? Não!

Ah, eu queria encarnar Lilith, Iara, Medéia e todos os mitos femininos vingadores juntos. Ou eu poderia simplesmente encarnar uma índia wichita e usar minha vagina dentada para castrar Marcelo. Lorena Bobbit é coisa de mulher sem glamour, sem elegância, sem feminilidade. Se algo me incomoda, eu vou lá, corto e jogo fora: atitude claramente masculina. Pobre, pobre. Eu queria mesmo é ter uma mágica vagina dentada e não apenas arrancar o pau do Marcelo mas, sobretudo, guardá-lo dentro de mim e não devolver jamais.

Sabe o que ele merecia? Merecia ter se metido com uma dessas loucas, tipo Glenn Close no filme “Atração Fatal”, que saem por aí matando coelhinhos a facadas. Ou então (já que nos lembramos da criatura) uma Lorena Bobbit que cortasse seu pau, o fatiasse bem fininho e fritasse como se fosse batata chips para os chimpanzés do zoológico comerem no lanche. Ou ainda uma loirinha do Tchan dos Capiocós do Judas que fosse correndo para algum programa de quinta categoria contar, com fotos inclusive, como ele a seduziu e a abandonou à própria sorte.  Mas ele é um homem esperto, sabe com quem se mete, escolheu uma mulher com os pés no chão. Pés no chão e, agora, um maldito cachorro com patas imundas no pijama e dentes surreais gangrenando o peito.

Então tá. Eu vou ficar aqui, nessa cama, até que o cão que ele me mandou canse do meu cheiro, canse do meu jeito, canse do meu sangue, relaxe as presas e vá embora. Exatamente como ele fez. Tá combinado, eu aprendi a lição. Primeiro vem ele, depois o cão.  Isso não é uma porcaria de poema pra rimar, mas eu não posso fazer nada. Eu não posso fazer mais absolutamente nada.

 

Leia o capítulo 4

O hábito de reter o choro

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net