“Um réveillon verdadeiro”

Eu desejo a você, portanto, não um ano-novo obrigatoriamente feliz, mas, para começar, um ano-novo verdadeiro.

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Se tem uma coisa chata no fim de ano são os comerciais de TV. Eles parecem ter saído de um mesmo molde com dupla estampa. De um lado temos locutores melosos declamando poemas enquanto crianças e adultos bem nutridos se abraçam; do outro, temos locutores megafelizes convocando a galera sarada a bombar noite afora, yeah!

Só uma vez, há alguns anos, eu vi um comercial realmente nota 10 com o tema réveillon. A peça publicitária, de uma famosa loja de roupas (C&A), era assim: modelos felicíssimos saçaricavam numa festa. Em câmera lenta (um detalhe expressivo) podíamos acompanhar seus movimentos subindo escadas, dançando ou cumprimentando amigos enquanto o preço das peças em destaque (vestidos, blusas, calças) aparecia na tela. Até aí, nada de novo. O grande diferencial dessa propaganda foi um toque tão sutil quanto devastador: a música. Durante essa feliz pantomima, ouvia-se apenas a melancólica Sorri (versão de João de Barro para a magnífica canção Smile, de Chaplin, Parsons e Turner), cujos versos agora reproduzo.

“Sorri/ Quando a dor te torturar / E a saudade atormentar / Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri / Quanto tudo terminar / Quando nada mais restar/ Do teu sonho encantador, sorri / Quando o sol perder a luz / E sentires uma cruz / Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri / Vai mentindo a tua dor / E ao notar que tu sorris / Todo mundo irá supor / Que és feliz.”

Ousada, brilhante e dolorosamente verdadeira, a propaganda da C&A foi uma crônica perfeita do que costuma ser a noite de ano-novo para uma boa parte das pessoas. Somos obrigados a vestir branco. Somos obrigados a comemorar urrando de felicidade quando o relógio bate meia-noite. Somos obrigados a esconder nossa angústia, nossos medos, nosso profundo enfado atrás de um sorriso de araque ou de um copo de bebida – ou de ambos. Mas quem nos obriga a fingir dessa maneira?

Arrisco um palpite: talvez aquele desejo antigo de pertencer a uma turma, de não destoar, de não fazer um papel supostamente ridículo.

Neste ano-novo, que tal deixar as conveniências trancadas no porão? Durma, se você estiver com sono. Chore, se estiver triste. Assista “Guerra nas Estrelas” ou “Festa de Família” do Dogma 95, se estiver com vontade. Peça desculpas para alguém, se isso for deixar sua alma mais leve. Diga para o seu pai (ou sua mãe) que, para variar, neste ano você quer ser muito elogiada, se o elogio dele for o que te fizer falta. Arrume o guarda-roupa, se você estiver no pique. Escreva um longo e-mail para aquele ex, colocando suas entranhas para fora, se isso for te aliviar. Faça maçã do amor em casa e se lambuze, se isso te apetecer. Termine seu namoro/casamento, se ele já estiver mais morto do que vivo. Dê uma nova chance a um homem, se seu coração mandar. Cumpra todos os rituais de boa sorte, se isso te acalmar.

Eu desejo a você, portanto, não um ano-novo obrigatoriamente feliz, mas, para começar, um ano-novo verdadeiro.

 

 

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Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net