Um textão sobre maternidade e família

Porque temos que ser bonitas, magras, eficientes, organizadas, boas esposas, mães, donas de casa, ter os melhores filhos, oferecer-lhes as melhores coisas, ter, ter, ter, fazer, fazer, fazer? TUDO e sozinhas?

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Photo by Dimitri de Vries on Unsplash

Você é uma mãe que trabalha fora, cuida da casa e da família e tem filhos pequenos. No sábado é dia de fazer mercado, limpar e organizar a casa e ainda se cuidar: escova, unha depilação… Você provavelmente acordou antes das 8:00, mesmo que todos na casa ainda estejam dormindo, e já fez tanta coisa, que às 16h você está pedindo a Deus uma cama.

Só que as suas crianças precisam sair e o marido não está mais dando conta do barulho delas dentro do apartamento – lógico, crianças precisam de espaço e ar livre para gastarem suas energias que são bem mais intensas que as nossas.  Para onde vocês resolvem ir? Para o shopping, claro! Tudo em um único lugar: estacionamento, lojas, brinquedos, proteção contra intempéries e alimentação.

Uma filha de 8 anos e uma de 4 anos. As crianças querem sair para que? o que elas querem e precisam? Mas, tem você, você quer e precisa de que? E… bora, pro shopping! Há também o marido, o que quer o marido? Bem, já dá pra ver que as necessidades de cada um não foram consideradas. Apenas seguimos o hábito costumeiro e vamos para o shopping. Porém, qualquer lugar é melhor que o shopping para conciliar estas expectativas e necessidades tão diferentes. O shopping está lotado. Encontrar uma vaga para estacionar é uma saga. Ir ao banheiro é uma saga. Apenas acessar a escada rolante é uma saga.

As lojas de departamento estão em promoção.  A mãe é imediatamente atraída para lá e  entra com as duas filhas pequenas. O pai, ah este achou a oportunidade certa de fazer o que mais faz: nada. Vai “descansar” um pouco sem a trupe barulhenta que é a sua família. A mãe “precisa” ver umas coisinhas da promoção, e como as coisinhas são para as próprias meninas, aplaca sua culpa em tentar se distrair um pouco. O dia está puxado.  Ela deixa a filha caçula com a mais velha, que obviamente, também quer ver algumas coisinhas e isso não inclui aturar a irmãzinha. A menina de 4 anos, está em uma loja entulhada de gôndolas e araras, todas mais altas do que elas; cheia de gente grande; nada para fazer que seja interessante para sua idade; sem companhia, porque mamãe e papai sumiram e ela já estava no apartamento o dia todo e junto com sua irmã mais velha, que nunca quer fazer nada legal com ela. Querendo apenas brincar, ela aventura por aí. Resolve aprontar. Se joga no chão, mexe no que não deve, pede tudo o que vê pela frente, implica muito com a irmã mais velha e por fim, chora incessantemente.

Pára a cena. O que a criança de 4 anos está fazendo que não seja absolutamente normal para uma criança da idade dela, com as necessidades que tem, nas condições em que está?

E a mais velha está enfim numa loja lotada de coisinhas: bolsinhas, batons, xuxas de cabelo, agendinhas, muitas cores, o paraíso sensorial! E a mãe? Muitas e muitas blusinhas, conjuntinhos, shortinhos, tudo o que as meninas perdem por crescerem rápido demais ou por encardirem muito. Os preços estão ótimos!

De repente um berro! Toda a loja pára. Uma mulher histérica: “Chega! Saco! Menina insuportável! Cadê seu pai? Já tô de saco cheio, inferno, Merda“. Era a mãe surtada, sacudindo a criança de 4 anos pelo braço, porque havia derrubado algo na loja. Acrescentando uma bronca homérica na mais velha, dizendo que ela “não presta nem pra olhar a irmã enquanto ela- a mãe, coitada- comprava coisas para as meninas mesmo”.

A caçula só aumenta a potência do choro, arfando, babando e se remelando toda. A mais velha quase morre de vergonha se encolhendo pelo constrangimento da família que tem e pelo medo da mãe. E a mãe? Não sei se soco ela ou se oro por ela. Coitada! Era uma descabelada, de olhos arregalados, desesperado por ajuda, colo e vergonha!

Esta cena se deu agorinha no shopping onde eu estava na interminável fila do caixa.  A verdade que testemunhei começa do berro. Tudo o mais eu inventei, projetei, deduzi… se você é mãe me diga sinceramente, se esta mulher não poderia ser você. Ou quem sabe até já foi você? Mas, voltemos a história. A mãe, além de ter de lidar com tudo o que aconteceu, ainda tinha que suportar os olhares críticos e acenos de cabeça de todos.

Pergunto eu, esta situação era previsível? Tinha como nestas condições  em que saíram de casa e chegaram neste shopping,  estas comprinhas da mãe darem certo? Cadê esse pai? O que está acontecendo com as pessoas? Perdemos qualquer resquício de razoabilidade. Quem disse que shopping é lugar de criança por mais que 1 ou 2h?

Só tenho poucas coisas a dizer:

1) TUDO na vida tem um preço e você pode fazer boas escolhas, mas para isso, terá que abrir mão de outras. Ter filhos, por exemplo, significa abrir mão de muitas coisas, mas muitas mesmo, em prol de colocar no mundo sujeitos autônomos e preparados para buscarem sua felicidade.  E mais, essa renúncia dura muitos anos. Pelo menos toda uma infância. Crianças precisam de companhia, ensinamento, amorosidade e de brincar!

2) Os gritos, constrangimentos, ofensas e desprezos causam DANOS PSICOLÓGICOS sérios e quase irreversíveis nos cérebros de nossas crianças. O que estas meninas aprenderam nesta situação no shopping? Se novamente, esta situação acontecer, o que elas sabem que devem fazer ou evitar para que a mãe não enlouqueça”? Qual é a regra? Qual é o combinado? O que se pode ou não fazer e aonde?

3) Por que, hoje em dia, há uma epidemia de diagnóstico de HIPERATIVIDADE (TDAH) em nossas crianças?  Porque os pais, muitas vezes, não oferecem tempo, espaço e experiência correta para as crianças serem crianças aprenderem, descobrirem, errarem, acertarem. Eles, muitas vezes, só querem que elas se distraiam com alguma coisa enquanto eles fazem as suas coisas. Aonde a interação? A troca? A referência? Sei lá! Tô julgando. Tô passada com esta cena.

4) O que um marido acha que é ser pai, chefe de família e parceiro de sua esposa? Onde as escolhas? Você só quer o lado bom e fácil de tudo? Todos estes papéis foram escolhidos por você. Alguém de obrigou a casar, ter filhos, sustentá-los? O que você não quer na sua vida, vai sumir apenas porque você não olha para aquilo? Você PRECISA encarar seus problemas e responsabilidades e agir. Filhos são sua responsabilidade! Eles PRECISAM dos pais! Sua esposa, sua mulher, sua companheira, é sua ESCOLHA. E ela também tem direitos e necessidades, tal qual você.

5) Porque nós mulheres nos colocamos neste lugar de tanta sobrecarga? Porque temos que seguir e corresponder a tantos padrões impostos externamente? Porque temos que ser bonitas, magras, eficientes, organizadas, boas esposas, mães, donas de casa, ter os melhores filhos, oferecer-lhes as melhores coisas, ter, ter, ter, fazer, fazer, fazer? TUDO e sozinhas? Muita carga!

Mãe, esposa, boadrasta, mulher e FELIZ! Foi lagarta, hoje é borboleta. Atua como Consultora em Educação Corporativa há 25 anos. Professora, palestrante e instrutora. Mestranda em Gestão do Conhecimento - ESPANHA; Pós Graduada em Gestão de Pessoas - PUC/RJ, terapeuta Holística - UNIPAZ/SP; Pós Graduação em Psicologia Positiva - IPOG/SP Psicóloga, Coach e Mentora.