Uma mulher de pé

O diabo que te carregue! Capítulo 46

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Hoje é sexta-feira e você faz algo ousado: marca – em lugares diferentes – um café às sete da noite com um pretendente e às onze com outro.

Algum coelho haveria de sair daquele mato.

O das sete é bonito, mas não te causa qualquer perturbação hormonal. O das onze é menos bonito que o das sete, mas consegue esquentar seus rins o bastante para um motel descompromissado.

Ao voltar para casa, às cinco da manhã, com as mãos ainda cheirando à camisinha, você tenta entender os sentimentos que se misturam dentro de você. É bom ter uma noite sem o menor compromisso com uma pessoa agradável, no entanto, você continuava lamentando não viver uma relação inteira e apaixonante.

Uma alegria morna e uma frustração de azinhavre brigam no seu peito. Estar com alguém assim, sem muito interesse ou vínculo, não te aquece. Você sabe que, ao chegar em casa, não vai pensar em ninguém, suspirar por ninguém, sonhar com ninguém.

Nisso, um carro avança o sinal vermelho e aparece na sua frente, rápido como um espocar de flash. Você tenta frear, mas é inútil: seu carro entra com tudo no outro e o prensa contra um poste.

Depois do impacto, você não tem certeza se está viva ou morta, só sabe que precisa sair do carro, com ou sem corpo.

A porta está emperrada, então você começa a chutá-la. Pode sair pela outra porta, e isso chega a te ocorrer, mas, talvez no afã de manter alguma normalidade, você quer porque quer sair pela mesma porta em que entrou.

A cada chute, a porta cede um pouco e um pouco mais até que um tempo depois você está livre. O rapaz no outro carro, em choque, com as mãos cravadas na direção, não responde quando você pergunta se ele tem seguro – você não tem.

Há, no carro, duas senhoras, igualmente aturdidas. Você chama a polícia. As senhoras começam a falar. Elas – as duas – estavam indo fazer hemodiálise e o rapaz na direção é seu motorista.

Você arranja um táxi, põe as duas dentro, manda-as para o hospital. Depois, pega a carteira do rapaz, que, já fora do carro, continua catatônico, e liga para o seguro. Você pede um guincho, escolhe uma oficina perto de casa e acerta o preço avulso para levar também o seu carro para a oficina (eles pensam que a titular do seguro é você, quando, na verdade, é uma das senhoras que você despachou para o hospital).

A polícia chega, eles querem levar os carros para a central e lá fazer o B.O. Você os convence de que o guincho já está chegando e de que será mais prático fazer o B.O. ali mesmo (você fica com o protocolo e depois pega o boletim de ocorrência na central).

Tudo acertado, os carros são tirados do meio da rua e, três horas depois, você consegue, exausta, voltar para casa.

Só quando se deita é que sente as dores (nas costas, nos pulsos, no pescoço e no pé direito). É também nessa hora que você percebe algo extraordinário: em nenhum momento você pensou em chamar um homem para te ajudar.

Você poderia ter chamado seu irmão, seu ex-marido ou, até mesmo, seu cunhado, mas isso simplesmente não te ocorreu. Se tudo aquilo tivesse acontecido seis meses atrás, sua reação teria sido bem outra – você, imediatamente, chamaria um homem para te socorrer. Você teria se sentido incapaz de lidar sozinha com batida, polícia, seguro, motorista atônito e velhinhas precisando fazer hemodiálise.

Todo o doloroso processo da separação começa, afinal, a mostrar seus frutos benfazejos: você não é mais uma menininha assustada que precisa de um homem para não desabar.

Naquela manhã, apesar de dolorida, você dorme bem. Dorme mulher, com frustrações e azinhavres, com cheiro de camisinha e gasolina, com café e atitude. Finalmente, uma mulher de pé.

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.