Uma negociação consigo mesmo

Como se dá o ciclo de vida financeiro das pessoas, e quais as armadilhas que se deve evitar em cada uma das fases desse ciclo

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“Fique de olho no custos, e os lucros cuidarão de si mesmos”

                 ANDREW CARNEGIE

 

Com o sistema previdenciário brasileiro rumando para um colapso, a manutenção do padrão de vida quando da aposentadoria vai depender, cada vez mais, dos recursos acumulados durante o período de trabalho, ou seja, a reserva que vai sustentar a aposentadoria tem que ser acumulada antes dela, devendo ser proporcional ao padrão de vida que se tem ou se deseja ter. Diante disso poupar deveria ser uma hábito inerente a todos, entretanto os números nos mostram uma realidade bem distinta, com as pessoas poupando cada vez menos. Mas por que, frente a tudo isso, temos tanta dificuldade de poupar e, quando fazemos, poupamos tão pouco?

Para responder essa pergunta é fundamental entender como se dá o ciclo de vida financeiro das pessoas, e quais as armadilhas que se deve evitar em cada uma das fases desse ciclo. De uma forma geral, o ciclo de vida financeiro da maioria das pessoas segue mais ou menos o mesmo padrão, dividindo-se em 5 fases distintas:

1) Dependência de terceiros – vai do nascimento até o início da atividade laborativa. Caracteriza-se por ser a fase de ausência de rendimento formal (não há vínculo empregatício), com as despesas, diretamente ou através de uma “mesada”, sendo custeadas por terceiros, geralmente familiares. Nessa fase ocorre o que chamo de “déficit virtual”.

2) Sustento justo – inicia-se com o estágio ou primeiro emprego, estendendo-se geralmente até a conclusão da faculdade ou curso técnico. Nessa fase os rendimentos provenientes do trabalho são, quando muito, suficientes para custear os estudos, ou seja, é a fase em que se investe no aprendizado, sendo as receitas equivalentes às despesas. É a fase do “equilíbrio da balança”.

3) Início da acumulação – tem início logo após a conclusão do curso superior, caracterizando-se por ser a fase do descobrimento e encaminhamento profissional, com reflexos positivos no rendimento. Geralmente é nessa etapa que as receitas passam a ser maiores que os gastos. É a fase do “superávit real”.

4) Maturidade – atingimento da produtividade máxima e, consequentemente, do auge da vida profissional. É a fase em que os rendimentos chegam ao patamar mais alto. Geralmente acompanhada pela estabilidade na vida pessoal, proporciona o ambiente ideal para a “aceleração do acúmulo”.

5) Aposentadoria – caracteriza-se pela perda de capacidade laborativa e fim da ascensão profissional. O desfecho é a saída do mercado de trabalho, muitas vezes acompanhada de queda no rendimento. É nessa fase que se inicia o período de “desacumulação”.

Para que se goze de uma aposentadoria tranquila, sem ter que abrir mão das coisas que se gosta ou fazer sacrifícios, é fundamental o desenvolvimento do que chamo de “CONSCIÊNCIA PLANEJADORA”. Para tanto, é preciso escapar de armadilhas, algumas delas sutis, que se apresentam nas fases anteriores ao início do período de “desacumulação”.

As duas primeiras fases são fundamentais para que se crie a percepção de que os pequenos valores são muito importantes para um orçamento. Muitas pessoas se equivocam em desprezar os valores que são pequenos quando comparados a outros gastos ou aos rendimentos. Essa prática é equivocada por dois motivos: 1º) pequenos valores, quando investidos corretamente, podem fazer uma grande diferença na reserva acumulada; e 2º) pequenos valores podem desequilibrar o orçamento, gerando necessidade de financiamento.
Para se ter uma ideia da magnitude do impacto desses “pequenos” valores, aplicar mensalmente uma quantia R$ 1.100,00, pelo prazo de 30 anos e remuneração equivalente à taxa básica de juros atual – SELIC, gera uma diferença na reserva acumulada de R$ 432.675,53 quando comparada a uma aplicação de R$ 1.000,00, ou seja, poupar R$ 100,00 reais a mais por mês aumenta a reserva financeira, ao final dos 30 anos, em mais R$ 430 mil reais.
A terceira etapa do ciclo financeiro – início da acumulação, por ser a fase em que há sobra de recursos, é ideal para que se faça um ajuste na forma de organizar as contas, gerando um reflexo positivo permanente no orçamento.

Ao invés de organizar as contas da forma POUPANÇA = GANHOS – GASTOS, o ideal seria pensar da seguinte forma: GASTOS = GANHOS – POUPANÇA.

Com isso, os gastos passam a se ajustar de acordo com a poupança, não ao contrário.
Na etapa seguinte, onde ocorre a aceleração do acúmulo, deve-se evitar que os gastos aumentem em proporção maior que os ganhos. Há uma tendência natural de querer aproveitar o momento, viver o agora, aumentando os gastos demasiadamente. É nessa fase que se deve parar e negociar consigo mesmo. Pesquisas mostram que quando as pessoas estão pensando em poupar, estão negociando consigo mesmo, só que no futuro. Entretanto, o cérebro interpreta que a negociação está ocorrendo com outra pessoa e, numa negociação com o outro, a tendência é que as pessoas busquem se beneficiar. Outro ponto importante é que o consumo está associado ao prazer, enquanto a poupança ao sacrifício, gerando sofrimento. O resultado dessa combinação é que se gasta mais agora em detrimento de poupar para o “outro” no futuro.
A criação da CONSCIÊNCIA PLANEJADORA não segue uma sequência lógica, e pode ser adquirida a qualquer tempo. Pare, analise em que fase do ciclo financeiro você se encontra, passe (se é que não o faz) a dar importância aos pequenos valores, faça um ajuste na forma de organizar suas contas e, principalmente, passe a negociar melhor consigo mesmo. O resultado será uma vida melhor em todas as suas fases.

Apaixonado por cifrões e moedas, era chamado de mão-de-vaca por cuidar do seu dinheiro desde pequeno. Mestre em Economia pela FGV/SP, especialista em Mercado Financeiro pela FGV/SP e em Mercado de Capitais pela FIPECAFI/USP, e graduado em Relações Internacionais pela PUC/SP. É um planejador financeiro certificado pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros - IBCPF e Especialista em Investimento pela ANBIMA.