Vida de mãe solo

Você é pãe: pai e mãe. Você é super mãe. Você é uma heroína. Ela deve ser vagabunda, não tem marido. Ela não faz mais do que a obrigação - teve filho, agora aguenta. Olha a casa dela que bagunça, não deve fazer nada o dia todo. Nossa, ela saiu com um cara, que vadia, onde deve estar o filho dela? Nossa, aff, aim, ui, credo!

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Você é pãe: pai e mãe. Você é super mãe. Você é uma heroína. Ela deve ser vagabunda, não tem marido. Ela não faz mais do que a obrigação – teve filho, agora aguenta. Olha a casa dela que bagunça, não deve fazer nada o dia todo. Nossa, ela saiu com um cara, que vadia, onde deve estar o filho dela? Nossa, aff, aim, ui, credo!

Da romantização da maternidade solo (que livra a responsabilidade do pai da criança e trata a mãe como algo sobrenatural e maravilhoso) ao preconceito total. Diariamente lido com estes estereótipos que escolheram para mim (e para todas nós, que criamos sozinhas os nossos filhos).

Vamos montar a seguinte situação: existem duas pessoas adultas e uma criança. A criança precisa tomar banho. Os adultos se revezam, uma liga o chuveiro e fica de olho na banheira, a outra separa as roupinhas, a primeira faz todo o trabalho de lavar a criança enquanto a outra já está na cozinha montando o prato do papazinho. Quanto tempo isso leva? Uns 15 minutos. E agora refaça esta pequena maratona imaginária, tendo apenas um adulto para realizar estas tarefas.

Mais um exercício? Vamos lá: Duas pessoas adultas, uma criança. Agora, a rotina de horário da escola, entrada e saída. Trânsito, estacionamento caótico, filho chega seguro na porta da sala de aula, beijoca e abraço. Corre pro trabalho. Um leva, o outro busca. Xi, atrasei no serviço, passa um zap pro parceiro e resolve tudo rapidinho – um dia normal para não entrar no assunto de quando a professora liga dizendo que o pequeno está com febre ou se machucou e é necessário correr para o hospital. E agora refaça esta pequena maratona imaginária, tendo apenas um adulto para realizar estas tarefas.

E vamos mais fundo: coloque a si, nestas posições.

São exemplos bem simples do dia a dia, só para mostrar um pouco de como funciona este mecanismo. Existe alguma heroína ali? Alguém é um faz-nada neste contexto? Não. Não somos ETs com superpoderes. Somos mulheres sobrecarregadas. Humanas. Como qualquer pessoa, como você, como o seu vizinho, como o cara que vende manga na esquina, a caixa da padaria, a sua mãe. E sim, coisas da casa ficam para depois de vez em sempre.

Não nos tirem a nossa humanidade. Nem com o pedestal tampouco com a cusparada. A quem não nos estende a mão, ao menos nos deixe em paz. Ah, e a nossa vida sexual não diz respeito a ninguém.

Obrigada, de nada.

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.