Virgens tardias

O prazer, as estrelas, os fogos de artifício e mais o que você quiser talvez estejam na padaria da esquina, na festa de aniversário do seu primo, na fila do cinema ou, como no meu caso, no assento dezessete de um ônibus rumo à praia.

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Photo by Roberto Nickson on Unsplash

 De uma época doida em que a virgindade era exigida entramos numa outra época, tão doida quanto, em que a não-virgindade é exigida. Outro dia ouvi uma menina de catorze anos fazer a seguinte pergunta num programa de rádio:

– As minhas amigas fazem piada porque ainda sou virgem. O que eu faço?

Não vou reproduzir a resposta dada, mesmo porque não concordo com ela, mas dou a minha, enxerida que sou:

– Meu amor, mande suas amigas crescerem. Até lá, tem uma plantação de batatas à espera delas em Jurubetana do Sul. E o mais importante: como assim, você é virgem “ainda”? Você é virgem e ponto! Não faça o que é bom para a sua mãe, para as suas amigas, para o seu namorado ou para a sua religião: apenas o que é bom pra você. Tenha catorze ou quarenta anos, você tem todo o direito de ser virgem – se é o que deseja – e ninguém tem nada a ver com isso.

Se, numa hora dessas, uma menina já sofre pressão, imagine uma mulher feita. É um constrangimento atrás do outro. Até eu perder a virgindade, quase aos vinte e três, ouvi coisas do tipo:

– Você tem algum problema psicológico? Trauma? Fobia? Neurose? Ou é problema físico mesmo? Doença? Infecção? Peste?

E lá ia eu dizer, mais uma vez: não encontrei a pessoa certa. Ao que me respondiam: a pessoa certa não existe. Mentira. Existe, sim. Pelo menos a pessoa certa para aquele momento existe e ela pode permanecer um dia ou uma vida inteira a seu lado.

Em outras palavras, tudo bem ser criteriosa (aliás, devemos ser sempre criteriosas, não só na primeira noite), o que não pode é cair no exagero e ficar esperando o Caio Castro pousar de paraquedas no seu quintal. O prazer, as estrelas, os fogos de artifício e mais o que você quiser talvez estejam na padaria da esquina, na festa de aniversário do seu primo, na fila do cinema ou, como no meu caso, no assento dezessete de um ônibus rumo à praia.

Virgens tardias podem ter escolhido sublimar a sexualidade, podem carregar feridas tão grandes que as imobilizam, podem não se sentir maduras ou apenas não ter encontrado um cara legal, os motivos não importam. Vamos respeitar.

Eu não estou aqui defendendo a virgindade, defendo, sim, o direito de mulheres adultas não serem vistas como aberrações apenas porque nunca fizeram sexo. Ou porque decidiram, por motivos particulares, nunca mais fazer. Ou ainda porque decidiram, por motivos particulares, não fazer durante um longo e indeterminado período. Minha insistência nos “motivos particulares” é apenas para lembrar algo que deveria ser óbvio: ninguém tem nada a ver com o que uma mulher adulta faz com sua vida sexual. Ou com o que ela deixa de fazer.

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net