Você merece um coxo

O Diabo que te Caarregue capítulo 41

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Quando tinha lá os seus vinte anos, você leu “As Brumas de Avalon”. Leu não, devorou.

Desde aquela época, os quatro volumes rolaram de uma prateleira para outra, de uma casa para outra, sem que você tivesse aberto suas páginas novamente. Agora mesmo, lá estão eles, os quatro livros, empoeirando na mais alta estante da sua sala.

Você apanha o banquinho de madeira na cozinha, sobe com cuidado e estica os braços. Pronto! Aqui estão eles, vertendo poeira e mofo, mas ainda vivos. Bem vivos. Você os limpa com uma flanela seca, depois sapeca um guardanapo de papel umedecido nas capas plásticas. Finalmente, senta-se na poltrona e, vinte anos depois, os observa sobre seu colo.

As Brumas de Avalon. A história do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda contada sob a ótica de quatro mulheres: Igraine, mãe de Artur; Viviane, a grande sacerdotisa de Avalon; Guinevere, a loira mulherzinha de Artur; e, por fim, mas não por último, Morgana, a meia-irmã de Artur, a sucessora de Viviane em Avalon, uma trágica e solitária figura.

Morgana sempre foi sua personagem preferida. Apaixonada por Lancelote que, para seu desencanto, ama a loira mulherzinha de Artur. A última testemunha do tempo das fadas engolida sem misericórdia pelas novas cruzes cristãs. A sacerdotisa poderosa e a mulher absolutamente solitária. Em muitos trechos do livro, você se sentiu na pele de Morgana – e doeu. Ainda dói.

Há uma determinada passagem – passagem que você leu há vinte anos e ainda guarda fresca na memória – na qual Morgana está na estrada, indo para Camelot, acompanhada do aprendiz de Merlim, um mago feio e coxo. Durante a caminhada, uma tempestade se forma e torna-se imperioso escolher um abrigo. Nesse abrigo improvisado à beira da estrada, Morgana, exausta, solitária, seca de afeto, carente do toque de um homem, se entrega ao mago feio e coxo que lhe fazia companhia.

Aquela cena, ainda tão viva na sua lembrança, te atinge como um estilete. Naquela noite sob a chuva, Morgana toma o amor possível, ela aceita aquele que a deseja, nada além de um homenzinho mirrado, feio e coxo. E, lá nos seus vinte anos, algum vaticínio terrível lhe fez compreender Morgana, como se você também só merecesse da vida uma criatura mirrada, feia e coxa.

Conforme os anos foram passando, a cada frustração romântica, você se lembrava de Morgana e repetia para si mesma: “Como ela, eu só posso ter um coxo, eu mereço um coxo”. E essa certeza, por mais estapafúrdia que fosse, sempre lhe soou como verdade.

Você poderia ter lido “As Brumas de Avalon” novamente para, quem sabe, com olhos mais maduros, trazer Morgana para um espaço menos cruel. Talvez você nunca tenha feito isso por medo de, numa releitura, Morgana parecer ainda mais frágil e solitária. Bem, é preciso correr o risco. Depois de vinte anos, menina, você precisa correr o risco e reviver Morgana, precisa trazer à tona sua própria história, pois a sacerdotisa solitária, guardada nos escaninhos da sua mente, se tornou você.

Já anoiteceu, é preciso acender um abajur ou dois. Você aciona o interruptor e, sem hesitar, abre o primeiro livro da saga: “A Senhora da Magia”. Não, não é possível reescrever a história, mas é perfeitamente possível compreendê-la de outra forma. Uma forma talvez menos sinistra do que uma noite miserável com um homenzinho coxo.

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net