Você o odeia

O Diabo que te carregue - capítulo 13

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Você o odeia. Agora ele deve estar num bar com seus amigos ou com alguma das suas novas amigas tão frescas e estúpidas quanto você foi um dia, enquanto você está aqui sozinha, chorando, comendo, sem uma droga de um colo para deitar a cabeça. Ele escapou de tudo ileso, porque nunca se envolveu com você de verdade: você namorou sozinha, casou sozinha, teve filhos sozinha e se separou sozinha.

As rugas que se incrustaram no seu rosto desde que você o conheceu provam que o tempo passou, mas para ele, esse tempo foi um hiato sem consequências. Agora ele desfila de All Star Converse azul por aí, parecendo dez anos mais jovem: é que você envelheceu pelos dois.

Ele e o All Star, que foi presente seu. Quantas idiotas como você ele já enganou usando os tênis que você lhe deu? Quantas acreditaram nesse visual jovem e despojado que você criou para ele? Quantas delas elogiaram os brincos dele na orelha esquerda? Ele diz a elas que foi você quem o levou para furar a orelha, que foi você quem teve a ideia e o movimento, como tudo no seu casamento? Ele diz a elas que foi você quem o levou – de má-vontade – numa loja para comprar essa calça que ele está usando? Aposto que não.

E outras vão cair na mesma armadilha que você, supondo estar com alguém que realmente se relaciona com elas, quando, na verdade, ele não passa de um parasita que se implanta sob a pele e fica ali, vivendo uma vida fictícia, roubada de outra pessoa, sem qualquer esforço ou empenho até que, quando a hospedeira descobre o truque, nada lhe reste senão procurar outra idiota.

Ele tem alguma ideia do quanto você sofreu tentando salvar o seu relacionamento? Tentando desesperadamente acordá-lo? Não, é claro que não. Um parasita não escolhe sua vida, apenas se deixa levar sem gastar as próprias forças, sem envelhecer, sem amadurecer, sem mudar um milímetro. Ele não mudou nada.

Deus, como você o odeia. Queria nunca tê-lo conhecido, queria varrê-lo da cabeça como no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças e você garante que, mesmo desmemoriada, mesmo não se lembrando de toda a dor que ele te causou, você jamais iria se envolver de novo com um sujeitinho do naipe dele. O naipe dos que se fingem de bonzinhos: esses são os piores. E agora ele diz “não tenha raiva de mim” sem nem saber o motivo. Ele quer se safar, como sempre. Quer agora se safar da sua raiva, mas ele não vai se dar bem dessa vez. Sabe por quê? Porque você não é mais sua hospedeira, porque você não tem mais de engolir sua frieza, não tem mais de se submeter a chorar no chão enquanto ele passa por cima de você.

Ele conta esse lindo episódio para as suas conquistas? Não? Então pode deixar que você mesma conta.

Você estava enfrentando um problema bem grave na sua família – e quantas vezes você pediu, em vão, para ele te ajudar… Numa noite, você, estraçalhada por dentro, senta no corredor e começa a chorar, chorar desbragadamente. Atenção: chorona é uma expressão que não se ajusta a você, de modo algum. E lá estava você, largada no chão como uma marionete esquecida em algum canto empoeirado, quando ele, carregando um livro, passa por cima de você no corredor e se deita na cama para ler. Verificando que havia apanhado o livro errado, ele se levanta da cama, passa de novo por cima de você, como quem pula um saco de lixo na calçada, pega o livro certo, volta para a cama tendo de passar mais uma vez por cima de você e põe-se a ler como se você fosse um fantasma.

Em nenhum momento ele olhou para você ou disse algo. Nada. Silêncio. Ignorância absoluta. Vocês não haviam brigado, ele não estava zangado com nada, simplesmente ele ignora qualquer coisa que não lhe diga respeito e a sua dor naquela noite em absoluto lhe dizia respeito. Este é ele. Frio. Distante. Não envolvido. Egoísta. Mas se fingir de bonzinho ele sabe bem. Usar as palavras em benefício próprio, ele sabe bem. Na prática, porém, tudo o que ele te deu foi ausência.

Mas como você é uma boa pessoa, vai lhe fazer um favor. Para facilitar os encontros amorosos dele, vai lhe dar uma carta de apresentação, algo que, em poucas palavras, esclareça a vítima rapidamente sobre as reais intenções dele. Uma espécie de poupa-tempo emocional. Quando ele encontrar uma nova presa, basta sacar este cartão do bolso e dar para a guapa ler – se ela souber ler, é claro. Se ainda assim, a tonta for em frente, é porque realmente merece um verme como ele. Lá vai:

“Olá. Você me achou um homem atraente e difícil, não é? Sou difícil mesmo. Faz parte do meu show. Quanto mais uma mulher tenta me conquistar, mais eu consigo obstruir-lhe a percepção e, assim, ela não conseguirá ver quem eu sou, não até eu estar perfeitamente instalado e em paz. Minha paz consiste em fazer com que outra pessoa lute, se desespere, envelheça por mim. Dessa forma eu levo a vida gastando o mínimo de energia. Choro não me comove, palavras de estímulo não me fazem mudar, carinho me é indiferente. Minha ex é um poço de ressentimentos contra mim, mas isso é um problema dela, como todo o resto. Palavras, eu as uso bem, até pareço muito afetivo quando escrevo, mas não se iluda, eu não passo de um parasita insensível. Não adianta tentar brigar comigo, eu faço você pensar que ganhou a parada e continuo igualzinho. Eu não mudo, eu não sinto, eu não me importo. Este sou eu.”

Você pára, pigarreia, relê o bilhete. Depois o amassa e o joga pela janela: ficou suave demais.

 

 

 

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*Photo credit: anieto2k via Visualhunt / CC BY-SA

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net