Você se dá ao respeito?

Nem vou entrar no mérito dessa ideia primata de achar um absurdo transar na primeira noite, como se houvesse uma constituição do bom comportamento que nos ditasse uma quota mínima de encontros antes de rolar sexo.

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– Você precisa se dar o respeito!

Eu detesto praça de alimentação. Gostoso é conversar durante as refeições num ambiente o mais silencioso possível, gostoso é restaurante vazio, cinema vazio, shopping vazio. Como eu não desejo que a cidade seja infectada por uma peste misteriosa à moda dos filmes de zumbis, realizo meu desejo fazendo compras às dez da manhã, almoçando no fim da tarde, indo ao cinema nas sessões da meia-noite.

Mas naquele dia aconteceu de eu estar no shopping com o estômago grudando nas costelas: meio-dia e meia, uma inundação de gente faminta e, sobretudo, barulhenta. Os restaurantes mais caros estavam igualmente cheios, decibéis a mil, melhor resolver o assunto rápido e rasteiro. Escolhi um prato ao acaso, número 5, encontrei uma mesa para dois, espremida entre outras maiores e me pus a comer. Em meio àquele inferno cacarejante, uma voz se destacava: era minha vizinha de mesa, advertindo uma moça que a ouvia com os olhos baixos.

– Se dar o respeito, sim! Você dá na primeira noite, se oferece feito um prato de macarronada e acha que o cara vai te respeitar? Não vai mesmo!

Hum… a moça precisava se dar o respeito, certo. Nem vou entrar no mérito dessa ideia primata de achar um absurdo transar na primeira noite, como se houvesse uma constituição do bom comportamento que nos ditasse uma quota mínima de encontros antes de rolar sexo. Isso pra mim tem nome: barganha. E eu acho repulsivo barganhar com sentimentos ou desejos. Se for espontâneo transar no quinto encontro, beleza. Se for uma barganha mamãe-eu-quero-casar, eu cuspo em cima. Isto posto, voltemos ao tal do respeito.

Suponhamos que aquela moça admoestada pela amiga (amiga?) na praça de alimentação realmente não tenha se dado o respeito, suponhamos que ela tenha rasgado todos os manuais, ultrapassado todos os limites, rastejado mais que Gregor Samsa. Neste caso, eu me pergunto: e o outro? Ninguém pensa no outro? Se você vai ser tratada com respeito apenas se você se der o respeito, isso significa que o outro tem o caráter volúvel a ponto de tratar uma mulher como um verme ou como uma deusa dependendo de como ela se comportar. Mas que tipo de pessoa é essa?

Responda você, leitora amiga. Você segue os seus valores e a sua educação ao tratar os outros ou você trata os que se dão o respeito com respeito e os que não se dão o respeito com bucha e tudo? Se alguém não se der o respeito, você aproveita e tripudia sobre a pessoa ou apenas lamenta sua falta de autoestima e decoro? Uma pessoa com valores realmente firmes trata a todos com respeito: simples assim.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net